Reconhecer os limites entre o eu e o outro sempre foi um objetivo de nosso progresso enquanto sujeito individual e diverso, uma meta para desenvolver um ego saudável. Tanto é assim que, na psicologia, se não sei a diferença entre eu e o outro provavelmente posso ter algum distúrbio mental ou transtorno de personalidade.
E todas essas divisões/limites se projetam para fora de nós com objetivos muito didáticos, é verdade. Contudo, temos a tendência a demarcar muito bem essas diferenças por querermos ser exclusivos e, assim, começamos a excluir tudo o que não se encaixa no nosso mundo sob a nossa perspectiva. Assim é com a língua, com a nacionalidade, com o estado, com o time de futebol, com a estética, com a roupa etc. etc. etc.
A balança das polaridades é sempre usada por nós com a intenção de menosprezar e aniquilar o outro lado, a parte com a qual não me identifico. Porém, esse outro lado, conforme as leis herméticas, nada mais é do que “idêntico em natureza, mas diferente em grau”, como o quente e o frio, o dia e a noite, a luz e a escuridão e assim por diante.
Como seres em constante aprendizado, cabe a nós analisarmos o quanto essas diferenças nos afetam de forma negativa, pois isso é trabalhar com inteligência emocional para olhar nossas percepções na prática.
Quando sinto raiva, qual é a outra polaridade que posso ajustar em mim? Raiva é uma das emoções mais instintivas dos seres sencientes, podemos perceber até nos nossos amigos não humanos, como os cachorros.
Aqui no Brasil, infelizmente ainda há muita divisão territorial. Logo, se a pessoa é de uma região considerada, pelo ponto de vista dela, como melhor que a outra, a tendência é que desvalorize as demais não percebendo a interdependência; se é de uma religião, as outras são consideradas erradas; se torce pra um time, os outros são os piores.
Todos nós já fizemos isso em algum momento, concorda? E nem precisa ser com tais exemplos, mas inúmeros outros: minha escola é a melhor; meu celular é o melhor; meu trabalho é o melhor…
A pergunta é: qual a sensação que essa ideia de “ser melhor” alimenta em nós? Nos tornamos superiores? Inabaláveis? Em qual área do corpo e de minha mente essa sensação afeta? Sinta seu corpo! Provavelmente, se se sente superior em alguma área da vida, uma quentura na região do estômago pode dar um up de poder em você.
Por outro lado, qual é a vulnerabilidade que pretendo esconder quando preciso sustentar essa ideia? Seria um medo de ser menosprezada? De não ser reconhecida enquanto pessoa? A mesma região do corpo dá um calafrio quando pensamos nisso, não é?
Faço essas perguntas provocativas tanto para você que me lê quanto para mim, pois para nos conhecermos precisamos ir mais a fundo em nossa compreensão de nós mesmos.
Na CNV – comunicação não violenta – há quatro passos para trabalhar: primeiro, eu observo o que me acontece, ou seja, principalmente qual reação tenho diante das situações. Segundo, devo identificar o meu sentir, o que, de fato, estou sentindo. Depois, ver qual necessidade humana, demasiadamente humana, quero satisfazer com essa emoção ou sentimento que percebi. Por último, preciso formular um pedido, seja a mim ou ao outro (lembra dele?) alinhado a essa necessidade, pois ninguém, além de mim mesma, sabe o que é.
O problema é que, como vivemos no piloto automático, todos nós nem sabemos o que sentimos e, por consequência, do que precisamos. Por isso, nos comunicamos de forma tão violenta, cada vez mais.
Faz sentido pra você? Tudo isso começa com entender de forma positiva os limites e limitações que temos para aprendermos a viver coletivamente, sem necessidade de fronteiras hostis contra meu vizinho, seja uma cidade, estado, país ou planeta, mas sim entendendo que essas diferenças nos complementam em graus inimagináveis.
Se você sentiu vontade de praticar, use o dia de hoje para aplicar os quatro passos da CNV e se conheça um pouquinho mais. Depois me conta como foi a experiência.


