Às vésperas do meu aniversário, resolvi materializar através das palavras uma das mudanças mais radicais que realizei nesta vida. E olha que por essa nem eu esperava! Em cerca de um ano, fui do ovolactovegetarianismo para uma filosofia vegana e antiespecista, que vai muito além da alimentação.
Pra começar essa história, gostaria de dizer que já fui muito preconceituosa com pessoas vegetarianas e veganas. Por quê? Ora, porque sou uma mulher da minha época e do meu tempo, e assim sendo, atualmente tudo o que se faz é comer carne e consumir derivados de origem animal, não é mesmo? O mundo tornou-se onívoro (ou carnívoro) já tem até alguns séculos, e hoje em dia é muito mais prático pensar no alimento com os ingredientes de origem animal, ir ao mercado comprar um frango ou bife e garantir o almoço do dia.
Na minha infância, houve um período em que “carne” era artigo de luxo em nossa casa. Com o tempo, creio que construí uma ideia – que também paira subliminarmente na sociedade – de que carne é sinônimo de fartura (vide a história da “picanha” nas últimas eleições). Aqui, todavia, há um parêntesis importante a ser feito: num país que figura no Mapa da Fome, infelizmente, a declaração anterior pode, sim, ser verdadeira. Sei que ainda é uma questão de privilégio pensar na alimentação num país com níveis altíssimos de insegurança alimentar. E compreendo e concordo plenamente com o conceito de nutricídio e seus estudos atuais.
Mas voltando à minha história, quando comecei a estudar na UFSC conheci inúmeras pessoas vegetarianes e veganes. Até morei com colegas vegetarianas e comecei a desconstruir aquele pré-conceito que tinha. Inclusive, nos últimos quatro ou cinco anos o meu irmão aderiu à dieta. Todavia, da graduação até o doutorado eu vivia praticamente de bolsa, logo, era moldada pelo RU – Restaurante Universitário. E como eu não tinha a mínima consciência sobre minha alimentação, jamais imaginava seguir por esse caminho.
Eis que em 2019, na minha primeira iniciação do reiki resolvi me propor um desafio: ficar os 21 dias de autolimpeza – característica obrigatória dessa terapia – sem ingerir carne (não obrigatório no processo). Foi muito desafiador mesmo! Mas sobrevivi, ampliei meu olhar sobre os temas e comecei a compreender esse universo alimentício que, pra mim, na minha ignorância daquele momento, era totalmente “sem noção”. Claro que naquele período consumia produtos derivados de animais, como ovos e queijos – que sempre fui apaixonada e não sabia o porquê, até descobrir que esse último contém um componente viciante.
A partir de então, eu já estava pensando em reduzir o consumo de carnes, e creio ter sido em 2020 quando fiz minha primeira exclusão: o coração de galinha, tão comum nos churrascos da vida! Eu era simplesmente “louca” por essa iguaria, porém, um dia, na pandemia, estávamos eu e Alexandre (meu esposo) comendo e senti um deslocamento no tempo-espaço ao ver tantos corações no prato. Creio ter sido levada a um momento ritualístico macabro naquele instante – e isso não é ficção. Decidi, então, parar de comer. Detalhe: naquela altura, jamais imaginava que me tornaria vegetariana!
Atualmente, devemos agradecer ao universo da internet por tantas maravilhas, dentre elas, encontrar pessoas dispostas a compartilhar conhecimento e informação de qualidade! Era meados de setembro do ano passado, quando resolvi participar de um desafio vegano da ONG Vegan Outreach: por 10 semanas, recebi material informativo e firmei o compromisso de ir reduzindo a carne no meu dia a dia. Em outubro, perto do meu aniversário, já havia reduzido cerca de 90% das carnes, mas ainda consumia outros derivados de origem animal.
Acontece que como sou uma pessoa que ama estudar, fui estudar um pouco mais sobre as diferentes dietas alimentares. E o que aprendi não foi pouco! Aliás, mudou a minha vida, como estou contando agora. Compreendi o que era a dieta do ovolactovegetarianismo e cheguei ao veganismo que, como mencionei, não é apenas uma dieta alimentar, mas sim uma filosofia de vida. Contudo, há outros fatores importantes nesta jornada: 1) meu processo de autoconhecimento e espiritualidade; e 2) apoio e parceria do Alexandre.
Costumo dizer que a coerência não deve ser priorizada apenas nos estudos da linguagem, quando traz sentido e harmonia ao todo daquilo que se fala ou se escreve, mas conforme nos dizia Paulo Freire, “É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal maneira que num dado momento a tua fala seja a tua prática”. Assim, venho aprendendo pelo fator 1 que o Amor é a base de tudo; e o Amor inclui, não mata, não devora, não explora.
É claro que o caminho do veganismo é árduo, pois é uma mudança gigantesca de paradigma. É óbvio também que não é fácil, mas dentre as inúmeras causas cientificamente comprovadas (causa ambiental, causa animal, saúde física) para pararmos de consumir ou reduzirmos produtos de origem animal, o que permeia essas relações é uma ética baseada neste Amor. Preciso dizer também que os aprendizados com os mentores da Casa do Consolador e o trabalho do Rancho dos Gnomos foram e são cruciais para essa transformação em minha vida.
Além disso, eu devo ter muitos créditos cármicos, pois o Alexandre (fator 2) também aderiu ao veganismo. Inclusive, ele foi a pessoa que me impulsionou nessa virada de chave. E hoje, nós dois estamos, desde março, aprendendo juntos tantas coisas: desde receitas culinárias até aquela pesquisa para saber se a empresa do creme dental faz teste em animais.
Confesso que tem sido uma jornada prazerosa, apesar de praticarmos o veganismo sempre na medida das nossas possibilidades. E ainda, desconstruindo a ideia de que veganismo é apenas para quem tem dinheiro. Sobre esse tema, indico o trabalho fantástico dos irmãos Leonardo e Eduardo do Vegano Periférico.
Devo frisar, também, que este movimento é plural, ou seja, a depender do lugar de fala pode haver, como em tudo na vida, certas contradições. Mas, dentre os inúmeros aprendizados que essa mudança alimentar e visão de mundo me trouxe, o principal deles é que somos seres de hábitos, e hábitos podem ser incluídos ou excluídos, a depender da nossa vontade. E vontade, para mim, tem que envolver algo que tenha um sentido maior. No meu caso, a ética do bem através do amor inclusivo e a busca pela coerência entre teoria e prática, pois já que sempre fui contra todas as formas de opressão, como manter a ideologia do especismo antropocêntrico acima de tudo?
Pra finalizar, te convido a refletir e, quem sabe, optar por reduzir o consumo de carne aderindo à campanha “Segunda sem carne“. O que te custa é muito pouco, se comparado aos benefícios para a tua saúde, a saúde do planeta e a vida dos animais. Experimente e me conta! Caso tenha se interessado pelo tema, também posso indicar documentários e materiais de pesquisa. Gratidão por me ler!
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