Tag: prosas; Letrux; reiki; poesia; mar; água; emoções

  • Desaguando as emoções através de reiki e poesia

    “Reiki: mágoa é má água dentro do corpo”

    (Letrux, 2021)

    Muitas artistas possuem o dom de performatizar as emoções humanas em suas infinitas nuances de um modo singular. Seja pela música, pela poesia ou pela estética audiovisual, entramos rapidamente no modo rapport com pessoas como Letrux, porque nos identificamos com a eterna efemeridade do desejo retratado em sua arte.

    Desde que vi seu primeiro show num festival que frequentei por 11 anos, o Psicodália, fiquei encantada com sua estética vitalizante. Era uma mulher poderosa falando sobre astrologia, reiki e meditação, além dos já óbvios meios de mitigação humana como lisérgicos, álcool e as paixões incoerentes que nos levam ao abismo.

    Ganhei de presente de uma amiga, igualmente artista, seu livro intitulado “Tudo que já nadei” (LETRUX, 2021), que é um convite a mergulhar nas emoções que acompanham a ressaca, as marolinhas e o quebra-mar, seja do mar real ou do mar da vida (qual é mais verdadeiro?), essa onda que nos leva e traz para dentro de nós mesmas em busca da fusão com a Onda Primordial Cósmica do Universo. 

    A ressaca do mar pode causar estragos gigantescos com suas ondas fortes; já uma ressaca de álcool exige muita água para a hidratação do corpo. As marolinhas do mar, pequenas ondas vistas como insignificantes mas que, juntas, podem se transformar em tsunamis que, por sua vez, exigirão de nós quebra-mares fortes o suficiente para resistir ao ‘tranco’ para lidar com tudo isso ao olharmos para elas, as ondas de emoções.

    No livro, a parte da ressaca é composta por textos em prosa, quase crônicas do dia a dia de uma artista foragida do mar em meio a uma pandemia, precisando materializar em palavras sua fuga pânica de desejo pela água salgada. O quebra-mar é composto de odes ondulantes que relembram as sensações marítimas e todo o romance que ela sente estando na mesma água salgada, sua salva-vidas. Já as marolinhas são pequenos versos que, de tão profundos, deixam as páginas em branco e uma interrogação por dias em nossas cabeças: será que somos como como peixes dentro do mar? Serei aquele peixe que fala “eu não acredito em água!”; ou aquele outro, que diz “eu só ouvi falar, mas nem sei se essa tal de água existe”?

    Seja em verso ou em prosa, são tantas as palavras combinadas ao bel prazer de Letrux que fico até com ciúmes dessa relação tão linda e potente que ela tem com o mar e com a água em suas diferentes formas transmutadas em poesia! Fico sem saber quais escolher para mostrar a vocês, por isso recomendo que leiam e escolham as suas favoritas. 

    De minha parte, ainda estou aqui digerindo e sentindo o livro, que me acompanhou nas viagens de ônibus em 2021 quando precisei ir dar aulas, ou fazer de conta que, em meio a uma pandemia. Retornei a ele agora, já na enésima onda de covid-19 que, porventura, chegou em nossa casa nos últimos dias. Ainda bem que já com a terceira dose, ainda bem que com reiki diário, ainda bem que vibrando bem alto pra garantir uma imunidade forte. Ainda bem que “estou cada vez mais consciente onde dá e onde não dá pé” (p. 86).

    Mas voltemos à composição do livro, que é pura água – líquida, salgada, gasosa, solidificada no corpo, que precisa dela para não se afogar em lama tóxica de sentimentos mal-resolvidos. Entre os quatro  principais elementos estudados desde a Antiguidade, a água é o elemento associado ao nosso corpo emocional. Como não existem acasos, o planeta Terra possui cerca de 70% de água, e o corpo humano adulto possui, ora, vejam só, a mesma porcentagem de H2O. “O que está em cima é como o que está embaixo”, já disse O Caibalion. Nessa lógica, é importante observar o quanto nossas emoções são importantes de serem vistas e acolhidas, pois “se todo dia tu chora aí ainda tem história ou tá na hora de ir embora” (p. 143). 

    Num planeta onde os homens foram ensinados a não chorar porque seria sinal de fraqueza, as mulheres foram compelidas a acreditarem que, para se tornarem fortes, também deveriam esconder suas emoções, principalmente de si mesmas. E o resultado disso é que temos uma sociedade cada vez mais doente da alma, pois as emoções e os pensamentos – aqui já é outro departamento, mas não deixa de estar intrincado naquele – possuem um papel primordial na nossa saúde integral, mas principalmente no nosso bem-estar, que é estar bem, de fato.

    Por muitos anos, sem saber, usei a poesia como um modo de recalcar minhas emoções. Que bela inocente eu fui, pois a poesia é pura emoção, sempre! Mesmo aquelas que falam “só” sobre coisas aparentemente materiais. Quando entrei para o mundo das “coisas místicas”, como dizem por aí, foi o reiki (rei – energia cósmica universal + ki – energia vital individual) que me fez, e faz todos dia, desaguar em emoções as mais diversas. Confesso que sigo enfrentando minhas ressacas, marolinhas e fazendo-me quebra-mar deste mar da vida, e que fico muito feliz quando leio textos como os de Letrux, que me fazem navegar neste oceano de linguagem que, ao fim e ao cabo, é tudo o que há de mais real na relatividade cósmica vigente.

    Letrux me lembra muito o nosso planeta, pois sendo do elemento Terra em seus três planetas principais, pelo viés da astrologia, precisa cada vez mais se derramar em água para ser vida (bem servida), e “que por isso mesmo precisa mergulhar, mergulhar muito, repete & reforça” (p. 101). E que bom que ela nos traz essas confissões em livro-vida, que é quase uma água-viva de Clarice! 

    Estamos todas no mesmo barco, digo, precisamos aprender sempre e cada dia mais a mergulhar, mesmo eu, aquela que sequer sabe nadar, já que algumas de nós não estão mais no barco, as mais ousadas. Por tudo isso, digo que bom que eu tenho o reiki e a poesia à minha disposição para me ajudar na natação cotidiana das emoções ordinárias que me movem e me comovem, principalmente quando penso no mar de gente que já passou por aqui e se foi, seja por vírus, egoísmo ou fúria humana. 

    Então, sigamos o exemplo de Letrux, que nos diz: “eu fico bêbada no mar e só vou embora quando ele fecha” (p. 110). Vamos nos embriagar do mar da vida, com todas as suas ressacas, marolas e tsunamis emocionais ao nosso dispor enquanto houver um pingo de vontade de viver. E não esqueçamos dos coletes salva-vidas, que podem ser poesia, reiki ou o que quer que emane Amor!



    Referência:
    LETRUX: Tudo o que já nadei: ressaca, quebra-mar e marolinha. São Paulo: Planeta, 2021.